Ora toma!

O Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, em Estrasburgo, condenou ontem a França por ter impedido uma mulher homossexual, que vivia com a companheira, de adoptar um bebé.
O Tribunal determinou que não se pode discriminar ninguém pela orientação sexual quando se trata de autorizar uma adopção (acho que em caso algum se deveria discriminar alguém pela sua orientação sexual, mas enfim, menos mal) e concluiu que a homossexualidade da candidata influenciou a decisão francesa, o que viola o direito de respeito pela vida privada e familiar.
A instituição revelou que a sentença terá efeitos de jurisprudência na Europa, mas que isso não implica que se esteja a validar a adopção de crianças por casais homossexuais em França (pois, infelizmente).
Em Portugal, o Ministério da Justiça, contactado pelo jornal Destak, escusou-se a comentar o caso (i wonder why!!!).
A decisão foi considerada histórica, pois é a primeira vez que Estrasburgo condena um dos 47 Estados do Conselho por uma discriminação homossexual numa adopção (a primeira vez só agora em pleno século XXI. Notável!).
A França terá de pagar à mulher 10 mil euros por danos morais, além de cobrir as despesas judiciais (toma e embrulha e ainda foi pouco).
Em Portugal, também é proibido um casal gay adoptar uma criança, no entanto, em singular podem fazê-lo, que é o que acontece, diz ao Destak um membro da ILGA (Sim, e, de facto, toda a gente sabe que um gay tem imeeeeensas hipóteses, claro. E mesmo que as tivesse, porque raio é que eu posso adoptar mas, atenção, desde que não tenha companheiro? Qual é a lógica disto?).

Estas coisas borbulham-me todas as entranhas físicas e mentais!
Só os heterossexuais é que sabem e tem a capacidade de amar uma criança?
Só em casa de um casal com 2 sexos diferentes é que uma criança pode ser feliz?
Será que é assim tão difícil entender que só porque não gosto de senaitas não significa que não viesse a ser um bom pai?
Em tantas coisas somos ainda tão pouco ou nada racionais.
E eu vejo a concretização de um dos meus maiores sonhos cada vez mais longe.

Smartista

Há quem o odeie e lhe chame "cadeira de rodas", "caixa de fósforos" e coisas que tais. Há quem o adore e, depois de conduzir ou ter um, diz que não quer outra coisa. Eu faço parte do segundo grupo. Andei no modelo anterior, aquele que pelas ruas mais se vê, mas em breve andarei e conduzirei um do novo modelo saído há mesitos no nosso país. Idêntico mas maiorzito, mais potente, mais seguro, mais confortável.
Pois é, não vale a pena perder mais tempo a deambular de stand em stand, de marca em marca, a ver este e aquele popó, a fazer simulações, a estudar vantagens e desvantagens, a pedir opiniões, a rondar este e aquele. Andei meses nisto e não vale mesmo a pena. Porquê comprar um outro se depois ia ficar sempre com o Smart na cabeça?
Chega. Está decidido. É o novo Smart que aqui o menino quer. É o novo Smart que o menino terá em Fevereiro.
É lindo, pequenino por fora mas espaçoso por dentro (o que convém a alguém grande como eu), óptimo para estacionar, o porta-bagagens chega-me perfeitamente, o consumo é dos mais baixos e, again, é lindo!
Não gosto particularmente de carros brancos mas o novo Smart branquinho apaixonou-me. É lindo, lindo. Branco, com célula de segurança tridion prata, tecto preto e traseira preta. Uma mistura clean, bonita, leve, de 3 cores que funcionam tão bem. Passei o fim-de-semana indeciso, hiper indeciso. Compro o branco/prata ou o preto/prata? Indeciso até à última da hora.
Apesar de adorar ambos, optei pelo preto/prata. Não só porque (e quem me conhece sabe) adoro preto, mas porque sempre quis ter um carro preto e porque sempre imaginei, caso comprasse um Smart, que seria preto. Porquê adiar se pode ser desta vez? Pronto, tenho pena de não comprar o branquinho lindo mas está decidido, está decidido. After all, black is my colour! E como está escrito num pin meu: "You can never wear to much black". Ah pois é!



(Novo Smart Fortwo Pulse, coupé, 84 cavalos)

Grrrrr...

Esta agora!
O mano aproveita a minha estadia por terras alemãs para vir cá a casa tirar umas fotografias e daí... tirar umas POUCAS ideias para a casinha que partilha com as suas amadas, a humana e a canídea. Poucas, disse-me ele, umas ideiazitas simples. Pois, pois... quando lá cheguei, aos seus novos aposentos, caiu-me tudo. Para onde quer que olhasse, em que divisão entrasse, era bombardeado pelas ditas algumas IDEIAS, digamos mais correctamente, cópias. Sim, CÓPIAS! Grrrrr...
Esferovite para aqui, desenhos para ali, cores usadas da mesma forma, molduras, disposições de objectos, recortes... Fotografados, alguns pormenores, alguns bem granditos, parecem autênticas imagens da minha casa. Duplo Grrrrr...
Ainda não estava recomposto deste trabalhinho de clonagem, no qual prefiro nem pensar muito, e hoje descubro que uma coleguinha, MUITO QUERIDINHA, resolveu fazer, digamos, o MESMO!
Enche-me de o telemóvel de sms a descrever o que fez e o que ainda vai fazer na casota caríssima. Enche-me de mms a mostrar o que já por lá articulou. E ainda finaliza escrevendo: "Toda a gente diz que está linda, que parece de revista de decoração, com personalidade e muito original!" Grande lata!
REVISTA DE DECORAÇÃO??? A minha casinha não é uma revista, que eu saiba. PERSONALIDADE??? Não a dela, ora que gaja! ORIGINAL??? Uma originalidade vinda de uns quantos km a nordeste.
Enervei-me, pois que sim. Enervei-me!
Uma pessoa faz umas coisas diferentes, cria pormenores só seus, personaliza cantos e recantos e vem esta gente e zás... Seus COPIÕES! Seus DESCARADÕES!
Triplo Grrrrr...

Despedidas...

Primeira grande decisão de 2008: Vender a casa. Custa-me, se custa. Nela vivi dos mais felizes e mais dolorosos momentos da minha vida. Já a amei, já a odiei profundamente. Já para ela corri, já dela fugi. Já a ansiei, já a evitei. Já a pontapeei, já a acarinhei. Nela está tanto guardado, entranhado, tanto foi sentido e vivido.
Ainda nem um ano faz que a ela voltei, que a redecorei, que lhe tendei dar uma "cara" nova e já a vou vender. Quase ninguém a viu como agora está e já a vou vender. Só há cerca de um ano que para ela olhei com olhos de quem vai começar uma "vida nova" e já a vou vender. Ainda não usufruí bem do novo look e já a vou vender.
Ao longo dos anos foi decorada e redecorada. Está tão linda, adoro-a. É a minha casa. Tive outras, tão ou mais importantes para mim, mas esta agora é a Minha Casa, o Meu Espaço, o Meu Canto, o Meu Cantinho Especial. Mas tem de ser, decidi vendê-la. Desta vez tem de ser. Dez anos depois do primeiro encontro, tem de ser.
Não faz sentido viver tão longe do local de trabalho. Não faz sentido fazer horas e horas de percurso diário (certamente por mais uns bons anos). Não faz sentido não viver mais perto das pessoas de quem mais gosto. O desgaste mental, o stress, os custos financeiros não justificam que com ela continue a partilhar a minha vida.
Mas só a ideia de fechar a porta de vez, para sempre, custa. Custa muito. Ver, nos imensos vidros da sala, o cartaz de venda, custa, é estranho, um papel ali a tapar, um papel horrível ali a mais. Um papel para onde o Bruno olha tempos a fio.
Será sempre a minha primeira casa! Sei que vou chorar. Já hoje, pisando este chão que conhece todas as solas dos meus sapatos, quase chorei.
Odeio despedidas, mesmo as de objectos (não me despedi convenientemente do carro e isso, estupidamente ou não, dá-me uma certa tristeza), odeio.
Dela sairei, daqui a semanas, meses ou mais. Dela se ocuparão outros. Mas o que eles não sabem é que ela vai comigo. Cada canto, cada cor, cada cheiro, cada marca, cada sorriso, cada lágrima... tudo o que a compõe vai comigo. E isso ninguém me tira.
E outro espaço, outra casa, outras paredes encontrarei, decorarei, sentirei como parte de mim. Até lá e depois, seja em 2008 ou não, tenho mais um tesourinho para guardar dentro de mim.

Cindy "Weird" Lauper

Marcou os anos 80. Era das presenças mais assíduas dos tops e toda a gente a conhecia. Para muitos "uma palhaça". Um corpito franzino e magro em oposição a uma carinha anafada como que inchada por resultado de inúmeras picadas de abelhas, uns olhitos quase fechados, uma boquinha a mostrar uma certa infantilidade, birra, raiva... e o cabelo, o cabelo, na época, único por paragens musicais. Amarelo choque misturado com vermelho, laranja, verde, comprido de um lado, rapado ou com desenhos geométricos do outro... Todo um semblante a condizer com a amalgama de cores, texturas e tecidos das suas vestimentas.
O bonito e lamechas "Time after time", o divertido "Girls just wanna have fun" e o belíssimo "True Colous", cada um do seu estilo, são conhecidos por todos e passavam, passavam, passavam na tv e na rádio. Ainda hoje sorrio quando os ouço.
Sempre simpatizei com a mocita "estranha" mas nunca fui grande fã. A vozinha infantil sempre me fez olhá-la como sendo uma má cantora. Quando soube que tinha participado num musical da Broadway nem queria acreditar, tal foi a surpresa. "Com aquela voz?" Mas depois de ver algumas imagens e de ouvi-la, mais velha, num excerto do mesmo, admito que a surpresa foi maior. Gostei. Gostei muito. Estava, diria, adequadíssima visual e vocalmente. A voz algo esganiçada funcionou muito bem no papel.
Hoje, ao ver uma rapariga no metro com um corte de cabelo fabuloso, lembrei-me desta senhora, outrora miúda com ar de doida, e pus-me a ouvir algo que quase ninguém conhece, algo que ouvi e vi tantas e tantas vezes numa das várias desgastadas k7 VHS onde, ainda adolescente, tinha a mania de gravar videoclips que iam passando no Top +, "Heading West". Depois "Time after time" e o inevitável e lindíssimo "True Colours". E foi tão bom ouvir isto no comboio.

(Heading West)


(Time after time)


(True Colours)


(Com Alan Cumming nos Tony Awards 2006 - Three Penny Opera)

Fumar não combate o stress... acentua-o.

Sim fumo! E então?! Desde que se começou a falar da legislação sobre o tabaco que, tantas vezes, parece que sou olhado com desdém por muito boa gente. Fazem um certo "arzinho" de quem diz: "Eh, eh, eh... Estás tramadinho a partir do dia 1 de Janeiro. O que eu me vou rir! Agora vais fumar para a rua, tu e todos os dessa corja poluidora."
Pois se é para fumar na rua, eu fumo. Apanho frio mas esse aguenta-se e a chuva não me incomoda. Janto fora e vou fumar para a rua. Deixo de ir a discotecas, pronto! Paciência!!!
Sou da opinião de que já há muito se deviam ter tomado algumas das medidas que agora estão em vigor. Fumo mas não acho bem incomodar as outras pessoas e, muitas vezes, vi-me no papel delas a levar com o fumo por todos os metros quadrados de ar num qualquer espaço fechado. Até eu, por vezes, ficava com dificuldade em respirar convenientemente.
Fumo mas entendo os que não fumam e ao meu lado se sentem incomodados. Agora não me venham é com fundamentalismos agarrados a leis pouco explícitas. Não me venham olhar de lado como se eu fosse um ser viscoso, um qualquer criminoso, um ser negro a deambular entre os tão saudáveis humanos, coitadinhos, que em nada prejudicam a saúde dos demais.
Sim, o tabaco é uma droga. Sim, sou viciado. Sim, sou drogado. E os medicamentos não são drogas? E o álcool não é? São. São e o último, pelo menos este, pode prejudicar gravemente a saúde também dos outros. É só pensar um bocadinho e perceber que sim. Se é para fundamentalismos então porque não proibir o álcool? Não afecta os outros? Pois, os familiares e amigos de alcoólicos não dirão o mesmo. As mulheres e filhos espancados por maridos alcoólicos não vêem a sua saúde afectada, já para não falar dos gravíssimos danos psicológicos? Já agora, porque não proibir o álcool?
Sim, sou fumador e então? Metam-me a fumar numa saleta, num aquário, num caixote qualquer dentro de um centro comercial ou à porta deste mas não me venham com argumentos estapafúrdios de que está decidido e, portanto, é questão de nos habituarmos, de que nem na rua se deveria fumar, etc.
Decidido? Questão de nos habituarmos? Pois, é o país dos hábitos, do comodismo. Habituamo-nos e pronto. Também, em certos países, as crianças de 4 anos, feitas escravas, já se habituaram a ser amarradas a camelos para que os ricos apostem naquele que vencerá a corrida com os miúdos montados. Também as mulheres nigerianas já se habituaram a levar 100 chicoteadas se engravidarem solteiras, mesmo que violadas... São hábitos e as pessoas habituam-se a eles.
Claro que são exemplos que poderão parecer exagerados e incomparáveis mas a verdade é que o argumento do "habituar" não me entra nem por nada. Neste país tudo se decide, tudo se faz a meia bola e força e cá estamos nós para tapar as mantas cheias de retalhos, para nos acomodarmos e habituarmos a uma lei tão pouco explícita que deixa os comerciantes com os cabelos em pé.
Na rua não se devia fumar? Sim, ainda outro dia me olharam de lado porque (passadas 2 horas a saltar de transporte em transporte) resolvi, finalmente, acender um cigarro na estação se comboios de Santa Apolónia. Uma outra vez, perante situação algo parecida, calei-me, mas desta vez passei-me completamente e fui grosseiro, mal educado.
Pois estava sentado à espera do comboio, na estação aberta, sublinho aberta, quando duas senhoras, muito aprumadas e empertigadas, cheias de acessórios dourados nos dedos, orelhas, pulsos e pescoço, falsas malas de marca cara e cabelos pintados cobertos de laca, se sentam mesmo ao meu lado. Uma olhou uma e outra vez e saiu-se com esta frase estrondosa como que a desdenhar aqui deste ser aspirante de fumos poluentes:
- Esta gente nem na rua devia fumar, a lei foi mas foi mal feita e ainda devia ser pior!
"Calo-me ou digo algo?" E disse, oh pois disse. O olhar da senhora fez-me saltar das goelas o que ela não queria, certamente, ouvir, mas ouviu.
- Desculpe, o fumo está a incomodá-la?
- Ah desculpe mas está, está.
- Então mas foram as senhoras que aqui se vieram sentar... a estação é arejada e bastante grande.
- Mas eu não tenho que levar com poluição e agora a lei diz...
- Olhe, a lei ainda me permite fumar em espaços abertos como este e estão aqui muitos cinzeiros. A senhora tem outros bancos onde se podia sentar e veio mesmo sentar-se aqui porque quis, peço desculpa.
- Mas esse fumo faz-me mal e eu não tenho culpa dos vossos vícios.
- A senhora conduz?
- O quê?
- A senhora conduz?
- Eu não mas o meu marido sim e o meu filho também tem o carro dele (diz a saudável criatura com ar muito snob de quem pertence a um trio familiar fantástico que tem dinheiro para duas viaturas, como se isso a tornasse quase uma estrela de alta sociedade). Mas o que é que isso tem a ver?
- Então se calhar devia dizer ao seu marido para vender o carro e ao seu filho também porque o que os dois carros poluem é bem superior ao fumo deste cigarro e de muitos outros acesos na rua, sabia?
- Olhe este respondão... mas os meus carros não atiram fumo para cima de mim. Ah, ah, ah...
- Pois, mas a senhora também não vai lá meter a cara nos canos de escape e veio meter a cara aqui só para implicar.
- É que isso faz mal, não sabe? O senhor é um estúpido de um mal educado que não tem respeito por uma senhora mais velha.
- Pois não, não tenho. Senhoras implicativas e sem argumentos não merecem a minha educação.
- ...
- E não, a sério que não sabia que isto fazia mal. É que o fumo é tanto que, além dos pulmões, esturricou-me o cérebro. A senhora com a sua idade já deve ter fumado muito, então. Com licença.
Levantei-me e fui-me sentar noutro banco. Todo eu tremia. Exagerei. Mas aquela atitude, aquela expressividade, aquele olhar de nojo pôs todas as minhas células a ferver de raiva.
Ainda pensei levantar-me, ir ter com as senhoras e pedir desculpas. Não o fiz.

Protector Solar


(Narração de Pedro Bial)

Weeds



E agora me vou daqui para me meter na erva. Consumir 4 episódios da segunda temporada... fora todos os da terceira.

Passagem de Ano


A vida anda agitada. Ora aqui, ora ali, pululando de um lado para o outro, mas lá houve um tempinho para colocar fotografias da Passagem de Ano no "Imitation of Life".
Ide ver, ide, ide.

Garbage


(You look so fine)


(The trick is to keep breathing)

Sou um "pita parvo"!

Voltei a este tema. Não posso deixar de voltar. Não há dia em que não ouça ou não ouça falar destes 4 miúdos. Ligo a tv, faço zapping e lá estão eles num vídeo, numa entrevista, numa reportagem... A suposta banda de maior sucesso da actualidade. Pesquisa-se um tema no You Tube e, incrivelmente, sem querer, lá acabam por aparecer eles. Há vídeos de tudo, montagens de tudo, coisas feitas por fãs, coisas feitas por quem os odeia e se dá ao trabalho de realizar clips elaboradíssimos a gozar com os moços. Tudo e mais alguma coisa. Clips sobre o sorriso do Bill, as unhas do Bill, clips sobre o piercing e os bonés do Tom, uma panóplia de coisas e mais coisas.
Os irmãos gémeos beijaram-se na boca? Porque é que estão todo o tempo agarrados um ao outro? O Bill é gay? Porque é que ele usa aquele cabelo? Não tem um sorriso lindo? São Emos? Porque é que os manos têm looks tão diferentes? Porque é que o Tom tem um estilo hip-hop mas toca numa banda rock? Mil questões, informações, especulações por todo o lado. É quase aflitivo e enjoativo.
Entro na escola e é raro o dia de que dela saio sem ouvir falar dos Tokio Hotel. Até na sala de professores. Uma colega ia sendo crucificada porque disse que o tema "Monsoon" lhe faz lembrar os Nirvana. Pois, heresias à parte, a verdade é que a mim também me faz e muito. Claro que isto é, para os armados em intelectuais, quase sinónimo de lhes provocar um ataque cardíaco ou, pelo menos, uma valente arritmia cardíaca. Comparar um tema dos Tokio Hotel a um tema dos notáveis Nirvana é um crime, pois claro!
Mas é fora da sala de professores que os ditos alemães causam mais estragos. As miúdas deliram completamente. Todas muito apaixonadas ora pelo Bill, ora pelo Tom. Faz-me uma certa confusão, admito. Miúdas apaixonadas por um rapaz esquelético que parece uma miúda, todo cheio de tiques, sorrisos frágeis, todo maquilhado? Mas a verdade é essa mesma. Suspiram, dão gritinhos e ficam, num segundo, com os olhos a brilhar mal ouvem o nome da banda.
Sabem tudo sobre o grupo, especialmente sobre os gémeos. O Bill tem uma manicure francesa, usa cremes da marca "x", o Tom lava o cabelo com produtos "y", um mede 1.83 m, o outro é mais baixo. Pesam 50 kg, etc, etc, etc... Sabem as letras de cor e salteado, inclusivamente em alemão. Querem aprender alemão e já há algumas inscritas, imagine-se!
E assim é por toda a Europa. Em meses milhões de miúdas adolescentes a passaram a idolatrar estes 4 rapazes. Os adolescentes masculinos, claro está, odeiam-nos de morte. O Bill é uma afronta às suas masculinidades. Rasgam posters, cospem nas fotos e, se pudessem, espancavam aquele Bill que faz as suas namoradas e adoradas ficarem com a pita aos saltos. Chamam-lhe "paneleiro", "maricas", "gay" com um ódio e asco assustador. Como é que é possível as suas queridas colegas, tão lindas, preterirem-nos tão másculos, dreads, estilosos, "pausados", virís, em função de uma coisa escanzelada, que se veste de gaja, pinta os lábios, os olhos e as unhas?
Mas elas lá andam eufóricas à espera do minuto em que as bilheteiras abrirão para o tão aguardado concerto em Portugal, no mês de Março.
Já aqui referi, noutro post, e volto a referir que não conheço bem a banda mas admito que, além do look do dito Bill, gosto de dois ou três temas. Gosto muito, mesmo.
Quero lá saber se é uma banda "industrialmente" produzida, se é uma banda que desaparecerá tão rapidamente quanto surgiu, se é uma banda que não passa de moda, se é uma banda para "pitas estúpidas", se é uma banda sem qualquer qualidade musical, se isto ou aquilo. Irritam-me sobremaneira as miúdas aos gritos parvos, irritam-me e muito, mas também me irritam aqueles pseudo-intelectuais que, sem conhecer bem, odeiam logo à partida, apelando a catalogações tão ou mais absurdas quanto os histerismos pré-adolescentes. Catalogam a banda, as músicas, os fãs e já está! Todos timbrados com "ignorantes", "putos parvos", "burros", "básicos", acompanhados com um sorriso de pena. Como os Tokio Hotel estão na berra, também está na berra nutrir por eles um ódio profundo, muitas vezes pouco argumentativo.
Acho piada à banda. Gosto do look do tal Bill. Gosto muito de alguns temas e pronto. Se sou básico, limitado, parvo, se não percebo nada de boa música por isso, paciência!


(Spring Nicht - Tokio Hotel)

E porque é que eu ainda não estive a metros deste piano?

Como esta mulher-génio mexe comigo... Sim, génio. quem já compôs o que ela compôs é, para mim, isso mesmo.
A voz, a postura, a presença, as opiniões sempre críticas, a forma de interpretar temas com letras notáveis, sim anotáveis no mínimo. Ouve-se e descobre-se sempre mais qualquer coisa, mais um pormenor. É a minha poetisa de eleição. Arrepia-me, Consegue traduzir milhares de sentimentos numa, aparente, simples frase.
É-me impossível eleger temas preferidos, excertos de actuações preferidos, momentos preferidos. Outrora já aqui postei alguns, hoje, neste dia chuvoso, apeteceu-me aqui ter mais uns quantos de uma lista infindável.
Esta senhora é fundamental à audição de qualquer ser.


(Crucify)


(Smels Like Teen Spirit - Nirvana Cover)


(Love Song - The Cure Cover)


(Gold Dust) Se há uma música que me deixa sempre arrepiado e com os olhos marejados é esta, sempre. Musicalmente a perfeição existe, sim.


(Winter) Outra que...enfim...


(Raspberry Swirl)

Twins News

Parece que os Brunecos que foram para a big moradia na Marinha Grande se estão a dar às mil maravilhas. Bem comportados durante a noite, asseados, dorminhocos e brincalhões.
Estava preocupado, ansioso, tristonho mas agora estou mais descansado. Ainda meio down, pela falta que sinto deles e do outro mano, mas mais descansado.
Em cerimónia "oficial", com direito a presentinho natalício e tudo, foram-lhes atribuídos nomes pelas pequenas da casa. "Atento" é o maior, o de uma manchinha na cabeça e "Só-neca" o mais pequenito com duas manchinhas.
Pronto, Yorick, Atento e Só-neca. Trigémeos idênticos com 3 nomes tão diferentes e peculiares.
Meninos singulares, tal como os pais, claro!



Yorick info

Se alguém tiver curiosidade em saber notícias do Yorick (o primeiro Bruneco a sair cá de casa), ver fotos do pequenote... é só ir ao blog "Comyxtura" dos meninos X e Y, cujo link está mesmo aqui do lado direito.

Gostei tanto de ver.

WC

Professora 1 - Olha que há muito tempo que não estava numa reunião assim.
Professora 2 - Pois imagino. Deve ter sido uma confusão. Com essa situação dos alunos invisuais deve ser só papelada, coisas para preencher, relatórios, apreciações, cá uma confusão... Ainda bem que me livrei dessa. Este ano nem básico tenho. É um descanso.
Professora 1 - Não, não, nada disso. Sabes, achei que esta ia ser a mais complicada de todas por causa desses mesmos alunos e com todo o trabalho a mais em relação às outras turmas. Achei que ia demorar mais do que as 2h e meia e que teria de continuar noutro dia. Achei mesmo. É uma turma complicada, sabes!?
Professora 2 - E conseguiram fazer tudo?
Professora 1 - Pois, foi exactamente o contrário do que eu pensei. O Dt trouxeste tudo muito adiantado e organizou muito bem o desenrolar da reunião. Correu mesmo bem.
Professora 2 - Então isso é bom. Quem é o DT dessa turma?
Professora 1 - É o Zé.
Professora 2 - Aquele rapazinho alto? O L****? Sei, sei.
Professora 1 - Sim. Correu mesmo muito bem. A que eu tive antes dessa foi um caos e nem havia casos complicados. Mas esta que eu temia... olha que há muito tempo que não estava numa assim. Foi dinâmica, tudo correu sobre rodas.
Professora 2 - Pois.

E o Zé L**** estava no wc masculino mesmo ali ao lado do feminino onde as duas falavam.
Faz bem ao ego ouvir estas coisas.

As letras que a inundavam

Abriu os olhos que tinha fechados. Fechados mas como se tivessem estado abertos mesmo durante o pouco tempo que dormiu. Ela estava ali a seu lado. Dormia profundamente, tão profundamente como três horas antes quando ele entrou no quarto fazendo o menor barulho possível. Era tão bonita. Tantos anos depois ainda a achava tão bonita. E aquele cheiro, aquele cheiro só dela. Um cheiro que só ele conhecia. Um cheiro que não se descobre no outro com abraços, cumprimentos mesmo de anos. Agora olhava para ela mas desde que tinha chegado, às 5 da manhã, despido a roupa atirada para o chão e tendo-se deitado de olhos fechados, nunca tinha deixado de a olhar mesmo de olhos cerrados e virado para o lado oposto ao que ela ocupava há anos naquela cama. Na sua cabeça estava a vê-la ali e cada vez que ela se mexia para mudar de posição ele via-a mentalmente e adivinhava-lhe a expressão terna.
Sentia uma dor a apertar-lhe o peito. Não chorou. Não queria acordá-la. Mas já não devia faltar muito para ela abrir os olhos, abraçá-lo e dizer-lhe o “bom-dia” de sempre.
Ali estava ela. Ali estava ele. Três horas depois de ali se ter deitado. Horas depois do sucedido.
Os amigos eram os certos, o bar era o certo, a bebida tomada várias vezes era a certa, aquelas raparigas eram as certas e aquela, especificamente aquela alta, loura, de olhos grandes e ousados, era a certa. Tudo certo e certeiro para acontecer o que aconteceu.
Depois dos risos, das piadas, dos copos, de umas trocas de olhares, de umas insinuações verbais e físicas certeiras, deu consigo na cama daquela rapariga jovem que parecia ter surgido naquele bar para ele, só para ele, para o tentar. E ele foi tentado. Ele cedeu. Ele quis. Ele deixou. Ele foi com ela. E ele teve sexo com ela. E foi bom, foi muito bom. E ele gostou, gostou muito.
E agora estava ali, novamente ali. Ali deitado ao lado da mulher com quem escolheu casar, ter filhos, criar uma família. A mulher que dali a minutos iria acordar, abraçá-lo e perguntar como havia sido o jantar e os copos com o pessoal do trabalho.
Iria perdoá-lo? Iriam voltar a ser o que eram? Como olharia ela para ele quando ele lhe dissesse? Como iria olhá-lo a partir dali?
E ele? Iria perdoar-se? Como é que olhava para si mesmo agora? Como é que iria olhar para ela? Para eles?
Nunca tinha acontecido mas ele sentia que ela iria perdoá-lo, conhecia-a demasiadamente bem. Sabia. Pelo menos tinha de acreditar nisso e queria tanto acreditar nisso.
Ela iria entender. A rapariga era nova, oferecida, ele estava bem bebido, os amigos estimularam a que acontecesse, criou-se o ambiente e ele deixou-se ir. Estava bêbado mas consciente para usar preservativo. A própria rapariga quis, mesmo garantindo que estava limpa, que não fazia aquilo habitualmente, ela própria quis. Foram cuidadosos e na altura da penetração ele protegeu-se. Era preciso muito azar.
Pronto, foi uma coisa de uma noite. Ele é homem, tem as suas necessidades, a carne é fraca e há muitos anos que não conhecia corpo que não o dela. Ela iria entender. Ela também tinha as suas necessidades. Ela também saía com as amigas e já havia chegado tarde a casa. Ele sabia lá o que também já podia ter acontecido.
A sua cabeça não parava. Eram perguntas atrás de perguntas, hipóteses atrás de hipóteses... e ela ali a dormir a seu lado. Os seus movimentos, cada vez mais frequentes, deixavam perceber que estava prestes a acordar, prestes a virar-se para si e a abraçá-lo.
Desejou tanto que ela entendesse, que o perdoasse, que não chorasse, que sofresse só um bocadinho, que o beijasse com aquele amor que só ela sabia dar, que tudo aquilo passasse. Desejou até que ela lhe confessasse que também já o havia feito.
Imaginou-se, dali a dias, quando as coisas acalmassem, a fazer amor com ela. Imaginou-se a cobri-la de beijos pelo corpo, ela a fazer o mesmo a si. Imaginou-se excitado com os lábios dela a tocar o seu pénis erecto. Imaginou-se a penetrá-la e o prazer que isso lhes dava.
Caiu-lhe uma lágrima, seguida de outra e mais outra. De repente quase deixou de conseguir respirar tal era o “nó” que lhe sufocava a garganta. Teve de conter um soluço e não deixar passá-lo por aquele “nó”. A sua cabeça criou um cenário aterrador. De repente viu o seu pénis a libertar um líquido branco cheio de três letras. Vários “h”, vários “i” e vários “v” enquanto ela ali tinha os seus lábios. De repente viu-se a libertar o seu fluido dentro da mulher que amava, um fluido cheio dessas mesmas três letras que dele saíam e que a inundavam. Um fluido que por ela se ia espalhando e contaminando todo o seu interior. De repente viu-se a fazer amor com ela e a matá-la. De repente olhou para o seu rosto e viu-a morta. Aquela noite tinha morto o seu amor. Ele tinha morto alguém e esse alguém era a pessoa que amava.
Sentiu um braço por cima do seu peito e ouviu da forma sussurrada que tão bem conhecia: “Bom dia! Então como foi a noite com o pessoal? Divertira-se? A que horas chegaste? Nem dei por nada.”
Ela estava ali, estava viva. Tinha sido um pesadelo de segundos. Ela estava viva e ali a seu lado como ele sempre quis que fosse e para sempre. E agora mais do que nunca o queria.
Ela estava ali abraçada a ele, como sempre o fazia quando não tinham de sair à pressa para o emprego. Ela estava ali abraçada a ele mas não sabia que estava abraçada a um criminoso. E era assim que ele se sentia. Não um marido que traiu a mulher, porque a outra rapariga pouco ou nada significou para ele. Não um marido que traiu a mulher que ama, porque nunca a deixou de amar no pouco tempo que o seu corpo esteve com o da a rapariga loura. Não um traidor, mas um criminoso.
“Então...estás a dormir? Não dizes nada? Como foi a noite? Não me digas que vieste a conduzir bêbado?”
Beijo-a na cabeça a cheirar aquele shampô que ele tão bem conhecia e apertou-a contra si com toda a força que, naquele momento, ainda conseguiu ter.

16/Dez/2007

E partiram, rumo à Marinha Grande, os outros dois Brunecos.
Farão parte de uma família de um casal com duas filhas pequenas e viverão numa moradia muito grande onde, espero, sejam muito felizes.
Impossível esquecer estes momentos de despedida. Uma despedida apressada que se traduz numa dorzinha, não tão pequena quanto isso. Vai passar. Estão em boas mãos também.
Foi bonito ver o olhar brilhante daquela menina que pulava de alegria desde que saiu do carro enorme e os viu ali, amedrontados, dentro da transportadora. "Obrigado, obrigado, são tão lindos, tão fofinhos... Posso levá-los ao colo?"
Sorri mas voltei para casa a chorar mal virei a esquina e deixei de ver o carro que partia. Certamente nunca mais irei vê-los.
Bruno e Camila andam pela casa... ele cheira tudo, ela não pára de miar.
"Os vossos meninos serão felizes".

:)


Quando passamos um dia tristes, coisas destas fazem-nos sorrir.

14/Dez/2007

O primeiro que partiu...

(Yorick - Imagem tirada do blog Comyxtura)
Aqui já na sua nova casinha.
Que sejas feliz, bruneco lindo.

Chegou a altura

Chegou a altura dos Brunecos irem para junto dos seus novos donos.
Tentei um certo distanciamento, não ligar-me muito a eles, para não me custar esta fase... mas custa, custa.
Sei que estarão bem entregues, que terão óptimos donos... mas fica uma dorzinha na despedida.

Que sejam muito felizes, coisinhas lindas.

In Repeat

O novo tema dos The Gift.
Composto para o álbum "Lisboa" de homenagem à cidade. Um álbum para o qual foram convidadas várias bandas portuguesas. Dos The Gift saiu isto.

Can you wait there for so long
Can you be there if I fall
Can you fall and stay strong
Can you dry your eyes and laugh
Can you show me your heart once more
Can you breath a new life now
Can I freeze this moment with you
Can my hand fix your heart and you
Did you ever touch the ground

Can we sing "out of time" in repeat,
and look both of us underneathor forget and reset
Cause the beat will change your life,
and the sweat will turn you on,
and your veins will shine outside.

Indios

Quem me dera, ao menos uma vez,
Ter de volta todo o ouro que entreguei a quem
conseguiu me convencer
Que era prova de amizade
Se alguém levasse embora até o que eu não tinha.

Quem me dera, ao menos uma vez,
Esquecer que acreditei que era por brincadeira
Que se cortava sempre um pano-de-chão
De linho nobre e pura seda.

Quem me dera, ao menos uma vez,
Explicar o que ninguém consegue entender:
Que o que aconteceu ainda está por vir
E o futuro não é mais como era antigamente.

Quem me dera, ao menos uma vez,
Provar que quem tem mais do que precisa ter
Quase sempre se convence que não tem o bastante
E fala demais por não ter nada a dizer

Quem me dera, ao menos uma vez,
Que o mais simples fosse visto como o mais importante
Mas nos deram espelhos
E vimos um mundo doente.

Quem me dera, ao menos uma vez,
Entender como um só Deus ao mesmo tempo é três
E esse mesmo Deus foi morto por vocês -
É só maldade então, deixar um Deus tão triste.

Eu quis o perigo e até sangrei sozinho.
Entenda - assim pude trazer você de volta prá mim,
Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do início ao fim
E é só você que tem a cura para o meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi.

Quem me dera, ao menos uma vez,
Acreditar por um instante em tudo que existe
E acreditar que o mundo é perfeito
E que todas as pessoas são felizes.

Quem me dera, ao menos uma vez,
Fazer com que o mundo saiba que seu nome
Está em tudo e mesmo assim
Ninguém lhe diz ao menos obrigado.

Quem me dera, ao menos uma vez,
Como a mais bela tribo, dos mais belos índios,
Não ser atacado por ser inocente.

Eu quis o perigo e até sangrei sozinho.
Entenda - assim pude trazer você de volta prá mim,
Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do início ao fim
E é só você que tem a cura para o meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi.

Nos deram espelhos e vimos um mundo doente
Tentei chorar e não consegui.

(The Gift/Legião Urbana)

Os Assassinos


(The Killers - When you were young)


(The Killers - Bones. Tim Burton's video)

7 Seconds


(Youssou N'Dour & Neneh Cherry)

If you can say no



(Lenny Kravitz with Milla Jovovich))

Say what you wanna say but...








... this guy is so f*** hot!

Quase de partida...


(Os abanões do video devem-se à madre Camila que não parava quieta a roçar-se em mim, sempre com os seus miados)

Maravilhas dos transportes públicos

Hoje, ia vomitanto com as náuseas sentidas perante o que vi. No comboio de regresso a casa, hoje mais cedo que o habitual, à minha frente sentou-se um homem pequenito e magro com um aspecto absolutamente asqueroso. Mas, acima de tudo, um homem com ar de quem já trabalhou muito no duro. Um homem triste, magoado com a vida. Um homem até com um olhar terno.
Pele velha e enrugada, roupa suja e mal cheirosa (hora de respirar pela boca), cabelo seboso com caspa, dentes podres (os poucos que lhe "minavam" a boca cicatrizada) e, pior, com a mão a sangrar. Olho e vejo uma mão de pele grossa e dura, escurecida do sol, com um bom bocado de pele arrancada, certamente, minutos antes. Eu nem estava a crer naquilo. E que fez o senhor para estancar o sangue? Tapou a carne viva com a pele pendurada e, qual penso perfeito e higiénico, apertou aquilo com um saco de plástico do Jumbo. Passou os cerca de 50 minutos da viagem a espreitar para o que se passava debaixo do saco já com sangue.
Uma ferida daquelas embrulhada num saco de plástico! Por muito que me tentasse abstrair não consegui. Tive de dizer qualquer coisa. "Desculpe... peço desculpa por estar a meter-me mas não devia ir ao hospital? Isso não está com muito bom aspecto e pode infectar. Não quer descer em Vila Franca? Eu vou consigo ao hospital. Fica a caminho da minha casa. Não me importo." E a resposta inesperado foi: "Isto tá bom, caralho. Na é nada e tu na tens nada a ver com isso, ouvistes? Olha-me este gajo. Foda-se!" Nem consegui responder. Puxei do ipod e escolhi "Loser" da Dolores o'Riordan. Achei apropriado.
E não é que o homem nunca mais saía do comboio? As estações iam passado e ele...nada de se levantar.
Ansiei chegar à minha saída e "livrar-me" do sujeitinho de quem tinha tido pena. Podia ter mudado de lugar, é certo, mas não quis, não fosse ele começar a "grunhir" qualquer coisa. Queria era livrar-me do homem e daquelas pessoas que olhavam de soslaio sem nada dizer. Livrar-me daquelas pessoas que ouviram aquilo e nada disseram. Continuaram a sua viagem como se nada fosse, como se ali nada se passasse.
Finalmente, Vila Franca, ia sair. Levanto-me e nisto, o homem levanta-se ao mesmo tempo. Por pouco aquela amalgama de carne, pele, sangue e plástico não me bateu na roupa. Seria o culminar do evento. Mas não, foi quase.
Dirijo-me para a porta com ele sempre à frente, muito lento a "arranjar o "penso" já em estado lastimável e indescritível.
As portas abrem-se, eu saio e a criatura o que faz? Vira-se para mim e sai-se com esta maravilha: "Oh pá, na me arranjas aí um cigarro, caralho?"
Aí passei-me. Apeteceu-me esquartejar-lhe a outra mão e partir-lhe as amostras de dentes negros daquela boca nojenta. Levantei a sobrancelha, olhei para ele com o ar, certamente, de maior repúdio que consegui e, como que em câmara lenta, abanei a cabeça em sinal negativo. "Não tens, caralho? Arranja aí!". "Tenho, está aqui". Saquei do maço que trazia no bolso e mostrei-lhe. "Tenho mas não dou!" Afastei-me daquela figura e não olhei para trás. Era o que faltava! Ele há gente!
Ai estas maravilhas dos transportes públicos...

Sentimentos intermodais

Andar em transportes públicos tem sido uma animação! Acordar antes das 6 da matina, fazer mais de um km até à estação de comboio (estou tramado se chover e nunca mais compro um chapéu de chuva), comprar o bilhete, picar o bilhete, apanhar o dito "comprido" ainda de noite, chegar a outra estação, descer as escadas a correr (coisa quase impossível perante a "manada" de utentes carrancudos), comprar e picar outro bilhete tudo à pressa, ir a correr, escadaria acima, para apanhar outro comboio, entrar nele aliviado, chegar à estação da outra margem e, pela janela, ver o autocarro das 8.02 a partir quase vazio (sim, porque o conceito de transporte intermodal em Portugal não passa de pura teoria. Estúpida e irritantemente, uns partem antes de outros chegarem, numa conjugação/interligação, absolutamente, inexistente), descer as escadas (por esta altura já subi e desci não sei quantas), sair da estação em direcção à paragem vazia do autocarro, ficar ali quase 20 minutos a "arripar" frio (todo eu uma amalgama de cachecol, luvas e gorro). Entrar no "bus", comprar mais um bilhete e olhar para o relógio com receio de ser desta que vou chegar atrasado. "Se o autocarro partisse às 8.05 era desnecessária esta ansiedade diária. Saio do barulhento meio de transporte e lá vou a pé para a escola. Novamente de passo apressado, tipo marcha olímpica, porque já tocou para a entrada e não quero levar falta. Um destes dias está-se mesmo a ver o que vai acontecer...
2 horas nisto, fora a hora do acordar.
Depois, ao fim do dia, novamente o mesmo, diria, ainda pior. Porque no regresso junta-se mais meia-hora. No regresso "apanho" uma mão cheia de alunos chatos na paragem de autocarro. No regresso faço o final percurso para casa a subir, a subir, a subir... Enfim, é mesmo bom passar 4h 30 min. diários em transportes públicos.
Sim, é muito cansativo, stressante, irritante, enervante... sim, sou alto e vou ali todo apertado com as pernas dormentes para não dar safanões em quem à minha frente se senta... sim, no regresso venho quase 1h em pé... sim, não consigo aproveitar para corrigir testes, trabalhos, preparar aulas (isto de ser grande faz com que esteja para ali apertado, quase sem me mexer, portanto, impossível tirar dossier, abri-lo e montar ali o estaminé para trabalhar. Vou começar a aproveitar para ler, se bem que de manhã o sono é tal que não me parece.
Mas nem tudo é mau, admito. Sempre gostei de andar de transportes públicos. Tirando os maus cheiros, os "chungosos", os burgessos, as conversas, assustadoramente, pobres de conteúdo, as mudanças bruscas de temparatura (já estou aqui a adivinhar uma gripezita), tirando tudo o que foi descrito, gosto de observar as pessoas, a diversidade, imaginar as suas vidas, ver quem entra onde e quando, os que dormem, os que conversam, os que criaram amizades dentro de uma "caixa andante", os que lêem e o quê, os que passam o tempo agarrados ao telemóvel, os que limpam as ramelas, os que ainda cheiram a gel acabadinho de besuntar o cabelo, os bonitos, os feios (e se há gente pavorosa, minha nossa), o que vestem, as expressões faciais (quase sempre tristes, sorumbáticas, acomodadas à vidinha), os risos, os sorrisos, os gestos... gosto.
Gosto de andar pela rua a ouvir música, de escolher o que ouvir, de me sentir num filme com banda sonora ao olhar o rio e os subúrbios "podres" da capital, de ver o trânsito parado na estrada e eu fora dele, das luzes, do nascer do sol no quentinho do comboio.
Um cruzar de sentimentos, de sensações, de cheiros, sons, cores, movimentos, pessoas, que me agrada.
Não sei se este sentir se manterá por muito mais tempo, certamente não, mas, por agora, no computo geral, tenho gostado, tenho.